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Logo: Sociedade Alemã de Amparo à Pesquisa (DFG) - Ir para a página inicial Deutsche Forschungsgemeinschaft

Um ano de pandemia – O que aprendemos?

(08/03/2021) Em 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que o mundo estava em estado de pandemia causada pelo novo coronavírus, muitas dúvidas surgiram sobre a forma de contaminação, o desenvolvimento dos sintomas e o agravamento da doença. Após quase doze meses difíceis e de muitas perdas, mas também de empenho extraordinário da comunidade científica do mundo inteiro, podemos dizer que aprendemos muito sobre esse vírus e a doença que ele causa. É claro que ainda há inúmeras lacunas de informação, no entanto, os avanços promovidos nesse período são enormes e é possível destacar, no âmbito científico, aspectos positivos.

Vacinas produzidas em tempo recorde

Imagem Iustratitiva sobre pesquisa

Imagem ilustrativa sobre pesquisa

© Freepik

Na coluna Mehr wissen, informiert entscheiden(Saiba mais, decida se informar) da DFG edição de janeiro de 2021 as cientistas, Susanne Herold (Professora de Doenças Pulmonares Infecciosas na Justus-Liebig-University Giessen e Chefe do Departamento de Infectologia do Hospital Universitário Giessen-Marburg), Britta Siegmund (Diretora da Clínica Médica de Gastroenterologia, Infectologia e Reumatologia do Charité – Universitätsmedizin Berlin, Vice-Presidente da DFG e Presidente da Comissão de Questões Fundamentais em Pesquisa Clínica da DFG), Cornelia BetschExterner Link(Professora Heisenberg de Comunicação em Saúde na Universidade de Erfurt) e o cientista Leif-Erik Sander (Professor de Infectologia e Pneumologia e Chefe do Grupo de Pesquisa em Imunopatologia e Pesquisa de Vacinas no Charité – University Medicine Berlin) deram uma panorama sobre o processo de desenvolvimento e produção de vacinas.

Segundo eles, independentemente da gravidade da doença, a COVID-19 pode levar a sequelas significativas a longo prazo, não só pela infecção em si, mas também pelas complicações do tratamento intensivo. Nas formas mais leves da doença COVID-19 também podem ocorrer sequelas associadas aos sintomas de longa duração, como fadiga, febre, falta de ar, tosse crônica, dor de cabeça ou depressão. De acordo com dados do NIHR (Externer LinkNational Institute for Health Research), mesmo nos casos leves da doença, ou seja, sem tratamento hospitalar, um em cada dez pacientes é afetado pelos sintomas da COVID-19 por mais de quatro semanas.

Assim como o sarampo, que fez inúmeras vítimas num passado recente, não há ainda terapia específica e eficaz disponível para a infecção por SARS-CoV-2 e sua doença resultante, a COVID-19. A vacinação, portanto, representa uma estratégia direcionada ao controle desta doença. E com isso algo único na história mundial aconteceu — as diversas estratégias para vacinações contra o novo coronavírus foram desenvolvidas e testadas em todo o mundo desde o início da pandemia. Mas o que muitos se perguntam é como isso foi possível?

O desenvolvimento de qualquer vacina é um processo complexo que consiste em muitas fases. Tudo começa com a identificação de antígenos adequados para o patógeno e o desenvolvimento de uma vacina potencial. Em seguida são realizados testes pré-clínicos em tubos de ensaios e em experimentos com animais. As autoridades regulatórias de cada país revisam esses dados, e as vacinas promissoras podem ser aprovadas para testes em humanos. Para isso, resultados detalhados já devem ser apresentados sobre o modo de ação, mas também sobre a toxicidade, isto é, sobre a propriedade da vacina de ter efeitos indesejáveis em humanos. Assim, o teste em humanos é executado em três fases.

Para uma vacina ser aprovada pelas agências regulatórias (aqui nos referimos especificamente a EMA - Agência de regulação de produtos médicos da Europa), ela deve passar com sucesso por todas as fases. Em cada aprovação é verificado se os benefícios da vacinação superam claramente os riscos reais e potenciais. Os fatores econômicos, como custos de vacinação, não são incluídos na avaliação.

Com as vacinas contra o SARS-CoV-2 aprovadas na Europa, isso foi alcançado em um tempo significativamente menor, devido a uma série de fatores favoráveis e ao design mais eficiente de processos de teste, sem perder o devido cuidado. O desenvolvimento da vacina SARS-CoV-2 foi capaz de se basear em anos de experiência anterior com coronavírus semelhantes, como os coronavírus SARS e MERS. A proteína spike, uma proteína de superfície característica do SARS-CoV-2, já era conhecida como um antígeno vacinal promissor. Em alguns casos, vacinas candidatas bem-sucedidas existentes contra outros vírus foram adaptadas ao SARS-CoV-2, o que economizou anos de trabalho de desenvolvimento.

As autoridades regulatórias forneceram aconselhamento contínuo em um estágio muito inicial, o que permitiu aos desenvolvedores de vacinas e às empresas se ajustarem às especificações e requisitos para os ensaios clínicos e o processo de aprovação. A combinação, e o planejamento paralelo, das três fases do ensaio clínico economizou mais tempo. Dessa forma, muitos processos organizacionais, como o recrutamento de pessoas para os testes, puderam ser agrupados. Normalmente, essas fases ocorrem uma após a outra, as vezes com intervalos longos. A combinação dessas fases foi possível, em grande parte, pelo alto comprometimento financeiro de governos, empresas e fundações. Além disso, foi usado o chamado processo de revisão contínua, que permite aos fabricantes de vacinas enviarem pacotes de dados individuais às autoridades regulatórias, durante o teste clínico de fase 3. Isso resultou em um processo e verificação mais rápido dos dados. No geral, o desenvolvimento da vacina, processo de teste e aprovação puderam ser acelerados significativamente, sem comprometer a seriedade dos testes de eficácia e segurança. No final, a relação risco-benefício positiva é o pré-requisito básico para a concessão da aprovação de qualquer vacina, o que ocorreu com as vacinas aprovadas pela EMA.

Cooperação internacional e interdisciplinar

Imagem ilustrativa sobre vacinas

Imagem ilustrativa sobre vacinas

© Freepik

Um dos fatores primordiais para todo o conhecimento que temos hoje sobre o SARS-CoV-2 se dá pela cooperação internacional e interdisciplinar entre as instituições de pesquisa do mundo inteiro. A aposta na ciência aberta, por exemplo, na qual os pesquisadores compartilham seus dados, resultados, programas de computador e seus artigos, antes mesmo de serem avaliados pelas revistas científicas, facilita e acelera o processo de pesquisa, uma vez que divulga os dados em tempo real.

A DFG reajustou recentemente sua política de acesso aberto, a fim de incentivar os pesquisadores financiados pela instituição a divulgarem os seus trabalhos em todo o mundo. "A pandemia do coronavírus mostrou mais uma vez como é importante a troca aberta e rápida de resultados científicos para o avanço, tanto do conhecimento, quanto do desenvolvimento social“, afirma a presidente da DFG Profa. Dra. Katja Becker.

Em junho de 2020, a DFG estabeleceu uma Externer Linkcomissão interdisciplinar de pesquisa sobre pandemias. Ela possui 18 membros de todas as áreas da ciência - desde doenças infecciosas e virologia ao direito público, ou de pesquisa do sistema de saúde à sociologia e pesquisa educacional. O principal objetivo dessa inciativa é fortalecer e estabelecer uma rede de pesquisa básica baseada no conhecimento. A comissão quer apoiar projetos financiados pela DFG para pesquisar pandemias e epidemias, tanto trabalhos em andamento como projetos de pesquisa no âmbito de chamadas interdisciplinares.

Em entrevista concedida a DFG Magazine em janeiro de 2021, o físico e pesquisador de infecções Prof. Michael Meyer-Hermann ressalta a importância da interdisciplinaridade na comissão da DFG: ”Para mim, o caráter interdisciplinar da comissão é um fator muito decisivo. Isso não é apenas pessoalmente enriquecedor, mas também beneficia decisões e recomendações. A própria perspectiva é complementada por outras perspectivas, especialmente na pesquisa básica. Isso também torna as decisões mais fáceis de implementar pois outros aspectos, como psicologia comportamental na pandemia ou danos colaterais em termos jurídicos ou econômicos, também estão incluídos”.

O Prof. Meyer-Hermann atua ao longo de sua carreira para que os métodos matemáticos se tornem o repertório padrão da imunologia. Por meio de suas simulações, ele já mostrou exemplos de como isso pode funcionar - e como os resultados podem ser usados de forma construtiva, não apenas em tempos de pandemia.

Onde a pesquisa básica entra nessa história?

Prof. Dr. Uğur Şahin, um dos principais nomes liagado a vacina BNT162b2

Prof. Dr. Uğur Şahin, um dos principais nomes liagado a vacina BNT162b2

© DFG

A primeira vacina contra o coronavírus aprovada na Europa é um exemplo claro da importância da pesquisa básica para sociedade, bem como da colaboração científica internacional.

A plataforma de vacinas mRNA usada pela empresa BioNTech, com sede em Mainz, em sua vacina COVID-19 desenvolvida com a empresa farmacêutica norte-americana Pfizer resulta de um trabalho preliminar de 2006 a 2008. O projeto realizado no Centro de Pesquisa Colaborativa (CRC) na Universidade de Mainz foi financiado pela DFG e se tratava da pesquisa do Câncer.

A pesquisa foi liderada pelo fundador e atual CEO da BioNTech, professor Dr. Uğur Şahin, cujo nome e pessoa estão intimamente associados à vacina chamada BNT162b2, assim como de sua esposa a Prof. Dr. Özlem Türeci e do Professor Dr. Christoph Huber.

"Nossa pesquisa inicial analisou como podemos melhorar ainda mais nossos mecanismos de imunidade e explorá-los para combater as células cancerígenas. Agora, pudemos aproveitar esse conhecimento. Ativar o sistema imunológico contra SARS-CoV-2 com uma vacina é um desafio mais simples do que superar a auto-tolerância ao câncer. Também nos beneficiamos de nossos muitos anos de experiência transitando entre os mundos da pesquisa básica e aplicada” relata Externer LinkUğur Şahin em matéria publicada pela DFG Magazine edição de dezembro 2020

A vacina da Pfizer BioNtech, já aprovada em muitos países, acaba de se tornar a primeira vacina com registro definitivo no Brasil. As vacinas que já estão sendo usadas nos brasileiros desde janeiro possuem um registro emergencial, ou seja, apenas para um público-alvo definido e para quantidade pré-estabelecida.

Na linha de combate a essa pandemia, a DFG estabeleceu em agosto de 2020 o programa de financiamento com foco em pesquisa sobre o COVID-19 (COVID-19 Focus Funding). Na primeira fase do novo instrumento de fomento foram contemplados 33 projetos de pesquisa sobre imunidade, suscetibilidade do hospedeiro e mecanismos patológicos da infecção com o SARS-CoV-2.

A matéria sobre o desenvolvimento inicial da vacina Pfizer BioNtech pode ser encontrada na edição de dezembro de 2020 da Externer LinkDFG Magazine em inglês.

Para outras informações sobre o corona vírus e chamadas em aberto acesse: https://www.dfg.de/en/research_funding/corona_information/funding_coronavirus/index.html

www.dfg.de/corona_news