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Logo: Sociedade Alemã de Amparo à Pesquisa (DFG) - Ir para a página inicial Deutsche Forschungsgemeinschaft

Cooperação internacional e tecnologia revolucionam pesquisas arqueológicas no Piauí

Quatro visisitantes indígenas conversam com expositora. Ao fundo, cartaz com imagem da exposição também mostrando quatro indígenas
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Grupo de jovens da etnia Xukuru-Kariri visita a exposição

© DFG

(27/07/2018) As belas fotografias do Parque Nacional da Serra da Capivara despertaram o interesse do público da 70ª Reunião Anual da SBPC na pré-história e biodiversidade do local. Exibidas pela primeira vez no Brasil, as imagens integram a exposição “Interner LinkSerra da Capivara: os mais antigos vestígios da povoação na América?”, realizada de 23 a 27 de julho na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), em Maceió.

Cerca de 60 pessoas compareceram à sessão de abertura da mostra, promovida pelo Escritório da DFG para a América Latina. No evento, o arqueólogo Prof. Demétrio Mutzenberg da Fundação Museu do Homem Americano (FUNDHAM), o fotojornalista autor da exposição, André Pessoa, e o historiador e idealizador da mostra, Uwe Weibrecht, dialogaram sobre as pesquisas que buscam entender a história da povoação da América.

Na década de 80, a Serra da Capivara, no Piauí, foi palco das escavações arqueológicas lideradas pela Prof. Niéde Guidon que encontraram, possivelmente, os indícios mais antigos da presença humana na América. Em 1986, seu primeiro artigo publicado na revista Nature datava os achados com 32 mil anos, contrariando a teoria vigente de que o homem havia ocupado a América há não mais de 15 mil anos. Até então, os vestígios antrópicos aceitos como os mais antigos eram da Cultura Clóvis, na região que hoje corresponde ao estado norte-americano do Novo México, datados com 12 mil anos.

“A maioria dos pesquisadores, quando chegava às camadas de 10 a 12 mil anos, parava as escavações, porque tinha certeza de que não ia achar mais nada. Niéde, teimosa, foi além. Seu achado, na época, era um indício isolado, não havia outros ao redor datados com a mesma idade e ela foi muito desacreditada”, declarou Pessoa, que há 25 anos acompanha e registra as pesquisas realizadas na Serra da Capivara.

Hoje, a Arqueologia já não aceita a teoria de Clóvis como única opção e entende que o processo de ocupação da América foi muito mais complexo. “Conforme mais dados e vestígios vão aparecendo, reforça-se que essa teoria não se sustenta. Naquele período, a descoberta de Niéde era só uma peça solta de um quebra-cabeça. Não podemos mais considerar esses indícios como fatos inexplicáveis. Temos que continuar buscando as outras peças, elas estão em todo o semiárido nordestino, no Chile, no México, nos EUA”, opinou o Prof. Mutzenberg na sessão de abertura.

Não faltará trabalho aos cientistas interessados em encontrá-las, diante do potencial ainda inexplorado do interior do Nordeste, especialmente do Piauí. “Essa região sempre foi vítima de um preconceito associado ao subdesenvolvimento e atraso social, mas é também onde temos o maior território conservado de caatinga no mundo. Quando a ciência chega ali, descobre na caatinga um lugar rico, repleto de biodiversidade e cheio de segredos para serem descobertos”, declarou Pessoa. O fotógrafo atribui à ausência de grandes projetos desenvolvimentistas no estado – diferente dos vizinhos Pernambuco, Bahia e Ceará – a maior preservação ambiental e dos sítios arqueológicos.

Mulher sentada, de costas, assiste ao filme da exposição com fones de ouvido
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Visitante assiste ao documentário no estande do DWIH São Paulo

© DFG

Entretanto, a alternância de temperatura entre o dia e a noite, típica do clima da caatinga, provoca fissuras nas rochas, desprendendo placas das paredes com pinturas rupestres. Estes danos causados pelos impactos ambientais estão apagando as imagens pré-históricas. Para conservar o patrimônio, pesquisadores da FUNDHAM – dentre eles, o Prof. Mutzenberg – vêm utilizando técnicas de documentação tridimensionais e geo-referenciadas.

Dos mais de 800 sítios arqueológicos do parque, 200 já foram documentados com essas técnicas, que permitem a medição de superfícies irregulares como rochas, além de mensurar a profundidade das pinturas. O resultado é um conjunto de dados como vídeos, fotografias e modelos 3D de alta precisão, a partir dos quais é possível analisar as degradações ao longo do tempo e planejar a prevenção e controle das ameaças ao patrimônio cultural.

O trabalho do fotógrafo André Pessoa tem um papel importante nesse processo: o planejamento do escaneamento em 3D é realizado a partir da análise do registro em foto digital em alta resolução. Em cenas mais complexas, o cruzamento dos registros bidimensionais e das projeções 3D possibilita propor novas interpretações para os desenhos.

O posicionamento geográfico de cada sítio arqueológico na superfície terrestre permite integrá-los a bancos de dados nacionais e regionais. O banco do semiárido nordestino reúne mais de 2.300 sítios registrados, com um vasto material a ser explorado pelas próximas gerações de pesquisadores. Segundo Mutzenberg, a partir destas informações, é possível criar estatísticas e reconhecer padrões nas pinturas. Identificar semelhanças e diferenças entre os desenhos permitiria entender melhor como o homem pré-histórico ocupou a região e em qual rota.

“Juntar as peças do quebra-cabeça para desvendar esse mistério está nas mãos de vocês, jovens cientistas, e das próximas gerações. É muito importante agregar, junto aos brasileiros, mais pesquisadores nessa busca e expandir a cooperação científica internacional, como faz a DFG”, declarou Uwe Weibrecht, moderador do evento e idealizador da exposição fotográfica.

A DFG apoiou, em 2014, a colaboração entre pesquisadores da FUNDHAM e do Instituto Alemão de Arqueologia (DAI). “Esperamos que, no futuro, possamos apresentar mais projetos bilaterais com a mesma importância deste”, declarou a Dra. Kathrin Winkler, diretora do escritório da DFG para a América Latina.

Além de conquistar o público da Reunião Anual da SBPC, a exposição também ganhou destaque na mídia e foi tema de uma reportagem ao vivo no Bom Dia Alagoas, telejornal matinal diário da TV Gazeta, afiliada da TV Globo. Confira Externer Linkaqui o vídeo.