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André Pessoa conta como é fotografar as descobertas arqueológicas na Serra da Capivara

Foto do rosto do fotógrafo André Pessoa na Serra da Capivara.

O fotógrafo André Pessoa na Serra da Capivara.

© André Pessoa

(10/07/2018) Em entrevista inédita, André Pessoa, autor das exuberantes imagens da exposição “Serra da Capivara: os mais antigos vestígios da povoação na América?”, que será exibida na 70ª Reunião Anual da SBPC, fala sobre sua relação com a região, suas experiências com o registro científico e a cooperação acadêmica internacional. O fotógrafo estará presente na sessão de abertura da exposição, em 24/07 às 11h30 no Auditório do MCTIC na ExpoT&C.

Promovida pela Sociedade Alemã de Amparo à Pesquisa (DFG), a mostra fotográfica poderá ser conferida ao longo da semana na ExpoT&C, no estande do Centro Alemão de Ciência e Inovação São Paulo.

DFG: Pode nos contar um pouco sobre sua trajetória com a fotografia e seu interesse por fotografar a natureza?

André Pessoa: Trabalho com fotografia desde o final da década de 1980. Na época, nos cursos de comunicação social, só existia uma disciplina sobre fotojornalismo. Então, fui para Curitiba fazer um curso especifico sobre fotografia e logo depois disso passei a me dedicar à Caatinga, ambiente natural exclusivamente brasileiro muito pouco conhecido pelo público e pela ciência. Desde então, me dedico a desbravar esse Bioma e todos os seus mistérios e riquezas. Já fiz uma exposição no Museu de Zoologia da USP chamada "A Crise da Biodiversidade", com a curadoria do pesquisador Hussam Zaher, em que mostramos toda a diversidade dos ecossistemas da Caatinga e o risco que eles correm pela falta de conhecimento e a destruição de seus ambientes naturais.

DFG: Como você começou a trabalhar com fotografia de registro científico?

A.P.: Comecei a trabalhar com fotografia científica no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, em 1993, fazendo o registro das pinturas rupestres da Área Arqueológica de São Raimundo Nonato, que, além da reserva federal, abrange vários municípios da região Sudeste do Piauí. Comecei fazendo os registros para ajudar os cientistas a interpretar as pinturas rupestres. Com a fotografia em alta resolução, os pesquisadores começaram a ver detalhes das pinturas antes imperceptíveis a olho nu. Os registros também serviam como arquivo em alta qualidade dessas manifestações gráficas milenares. Muitas das pinturas sofrem processos, naturais ou não, de destruição, e as imagens se transformaram numa espécie de banco de registros dessa arte.

DFG: Qual é a sua relação com a Serra da Capivara?

A.P.: A Serra da Capivara é um lugar especial. Apesar de estar localizada numa das áreas mais subdesenvolvidas do Nordeste, abriga um dos trechos mais conservados do Brasil, com fauna e flora ainda selvagens e milhares de sítios com manifestações gráficas da pré-história. Minha relação com a Serra da Capivara vem desde a adolescência, quando ficava fascinado ao ver nas revistas, jornais ou emissoras de televisão os trabalhos científicos da equipe da Niéde Guidon no local.

DFG: O que é inesquecível nessa experiência para você?

A.P.: Quanto tive a oportunidade de conhecer a região em 1989, tive a certeza de que iria trabalhar ali, fiquei apaixonado pela natureza – a Caatinga que encontrei ali era completamente diferente de tudo o que já tinha visto. E ao conhecer seus moradores e a cultura local, fui cada vez mais me aproximando do lugar ao ponto de me mudar definitivamente para lá em 1993. Tudo foi inesquecível nesses primeiros encontros: a culinária sertaneja, a simplicidade do povo, as dificuldades para sobreviver numa área semiárida, os amigos que fiz lá e com os quais mantenho relação até hoje e, claro, a imensa riqueza científica desse pedaço do sertão brasileiro.

DFG: Como foi sua experiência com a equipe e os processos de pesquisa no Parque Nacional?

A.P.: Foram e ainda são experiências riquíssimas de aprendizado. Tudo foi feito com muita paciência e calma. Para conseguir a confiança dos pesquisadores, tive que provar que meu trabalho tinha qualidade, que os registros fotográficos em alta resolução poderiam ajudar nas pesquisas, na divulgação e na conservação desse patrimônio natural e cultural. O tempo se encarregou de nos aproximar e, até hoje, passados 25 anos, essa parceria se mantém cada vez mais fortalecida.

DFG: O que você buscou mostrar nas fotos feitas para a exposição?

A.P.: Além de mostrar a singularidade, a beleza e o desconhecimento da fauna e flora da Caatinga, busquei levar ao público detalhes das pesquisas e suas descobertas que, muitas vezes, ficam restritas ao universo dos pesquisadores ou a artigos científicos e mostras em museus. Fotografei os trabalhos nos laboratórios, as descobertas mais importantes, as peças mais raras, as pinturas mais expressivas e conservadas, além do homem atual e sua vida nesse ambiente tão áspero.

DFG: Qual foi o objetivo de levar a exposição para a Alemanha?

A.P.: A ideia foi ampliar a divulgação das descobertas da Serra da Capivara em âmbito mundial. A Alemanha é um dos países mais desenvolvidos do mundo e que muito valoriza a cultura e a ciência, não só do seu próprio país, mas de diversas áreas do planeta. O país é uma espécie de capital da Europa, então pensamos que, chegando lá, naturalmente chegaríamos ao público europeu. E isso de fato aconteceu.

Mas tudo começou com o projeto do historiador Uwe Weibrecht, um alemão naturalizado brasileiro que sugeriu que a produtora alemã ZDF fizesse um documentário sobre a Serra da Capivara para a série Terra X. Além de ser a maior emissora pública da Alemanha, a ZDF tem seus programas veiculados em inúmeras emissoras públicas da Europa. O documentário acaba de ganhar o troféu 2018 do projeto VerCiência. É o primeiro prêmio desse filme que têm ajudado muito a divulgar o potencial científico e natural da Serra da Capivara. A solenidade de premiação será no dia 10 de novembro no Museu do Amanhã no Rio de Janeiro.

DFG: Como o público alemão recebeu a mostra?

A.P.: Com muito entusiasmo, já que várias pessoas tinham visto o documentário da ZDF e a exposição chegou em Berlim no auge da repercussão do programa de televisão. Aberta inicialmente na Embaixada do Brasil na Alemanha e logo em seguida nas sedes da DFG em Berlim e em Bonn, a mostra foi bem recebida e vista por milhares de pessoas. Em Berlim, por exemplo, a embaixada me comunicou que diversas escolas da cidade levaram seus alunos para conhecer melhor as descobertas da Serra da Capivara, que estão mudando as teorias sobre a ocupação das Américas.

DFG: Na sua opinião, quais benefícios esse tipo de cooperação internacional pode trazer para as pesquisas e as comunidades locais?

A.P.: A cooperação internacional tem o condão de aproximar parceiros e incrementar os intercâmbios. Nesse sentido, a cooperação entre Alemanha e Brasil na área científica é extremamente positiva para os dois países. Por exemplo, a Alemanha tem muito mais acesso a centros de pesquisas com mais recursos técnicos e financeiros e isso ajuda pesquisas que necessitam de apoio, parceiros e novas tecnologias. A cooperação com a Serra da Capivara vai permitir a abertura de novos caminhos da pesquisa que tenta mostrar que o homem já estava na América muito antes do que se convencionou afirmar, dará novo fôlego aos pesquisadores, trará para os laboratórios novas tecnologias e, com isso, quem sabe, novas descobertas surgirão.

DFG: Como você se posiciona diante da falta de recursos e prejuízos que o Parque Nacional da Serra da Capivara vem sofrendo?

A.P.: A pesquisa científica na Serra da Capivara nunca sofreu com falta de apoio, seja técnico ou financeiro. Já são quatro décadas de pesquisas intermitentes na área, sempre com a colaboração de diversos países. A dificuldade é a constante falta de recursos para a manutenção do Parque Nacional da Serra da Capivara, que é Patrimônio Cultural da Humanidade da UNESCO e deveria ser prioridade de conservação por parte do Governo do Brasil. Todo ano, a Fundação Museu do Homem Americano, que não possui dotação orçamentária, passa por dificuldades para mantê-lo em funcionamento. Por isso, os constantes apelos por parte dos pesquisadores para a garantia da integridade da Serra da Capivara.

Recentemente, o ICMBio, órgão do governo brasileiro responsável pelos parques federais, decidiu tratar a Serra da Capivara com a prioridade que merece. Três analistas ambientais foram deslocados para a região e, pela primeira vez, o parque têm técnicos preparados e dedicados exclusivamente à reserva federal. Acreditamos que essa nova geração concursada pode fazer a coisa funcionar de modo diferente. As ações da atual chefe do parque, Luciana Nars, têm demonstrado que o caminho é estreitar a relação com as comunidades de entorno, revitalizando seu conselho consultivo e colocando para funcionar o Plano de Manejo do parque.

DFG: Diante dessa situação, qual a importância de trazer a exposição para o Brasil?

A.P.: A importância de trazer a exposição para o Brasil é enorme, pois vamos mostrar ao público o tamanho da riqueza que a Serra da Capivara abriga e que nós, brasileiros, não damos muita importância, pelo menos até hoje.

DFG: Como a fotografia pode contribuir para a ampliação do conhecimento científico?

A.P.: Tem um ditado aqui no Brasil que diz: Só se preserva aquilo que se conhece. Então, nesse aspecto, a fotografia tem um papel extremamente relevante, pois é através dela que podemos levar a imagem desse imenso patrimônio para que nossa população o conheça e passe a valoriza-la.

DFG: Quais são seus próximos projetos?

A.P.: Queremos ampliar esse processo de divulgação internacional da Serra da Capivara. Em março passado, também através da associação ProBrasil, que o Uwe Weibrecht coordena, recebemos 11 jornalistas científicos da Associação Alemã de Jornalismo Científico (WPK), que trouxe ao Brasil repórteres da Alemanha, Áustria e Suíça para conhecer a Serra da Capivara e outras unidades de conservação do Piauí. O resultado tem sido uma série de matérias publicadas nos principais jornais da Europa sobre as descobertas na região. Também queremos trazer a exposição para São Paulo para atingir um público maior no país.

Saiba mais sobre a exposição Interner Linkaqui.

Exposição “Serra da Capivara – os mais antigos vestígios da povoação na América?”

Quando? 23 a 27 de julho, das 9h às 18h
Onde? ExpoT&C da 70ª Reunião Anual da SBPC
Estande do Centro Alemão de Ciência e Inovação São Paulo, Universidade Federal de Alagoas – UFAL

Sessão de abertura


Quando?
Terça-feira, 24/07, 11:30 – 13:00
Onde?
Auditório do MCTIC na ExpoT&C

Participantes: fotógrafo André Pessoa, Dr. Demétrio da Silva Mutzenberg, arqueólogo e pesquisador da Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), e moderação de Uwe Weibrecht, Presidente da Associação ProBrasil e idealizador da exposição.

Realização: Sociedade Alemã de Amparo à Pesquisa (DFG)
Apoio: Centro Alemão de Ciência e Inovação São Paulo.